domingo, 9 de agosto de 2015

8. UMA MULHER DE CABELO A ESCORRER, UNS JEANS SEBENTOS, UM TUBERCULOSO VEGETARIANO E A FIGURA DE ZEUS.



O apartamento da Madalena e do seu namorado turco tinha uma sala grande que dava diretamente para a porta de entrada, três quartos, uma cozinha, uma casa de banho, um cheiro muito esquisito que se entranhava na pele, o Cortes dizia que era uma mistura de odor de freaks com vapores de haxixe, barulho infernal a entrar pelas frinchas das janelas a qualquer hora do dia e da noite e uma passagem ininterrupta de visitantes oriundos dos mais diversos lugares e portadores das mais palpitantes esquisitices.

Parecia que meio mundo tinha a chave da casa. Os visitantes entravam a qualquer hora e, em regra, não ficavam mais do que um dia. O único frequentador quase permanente, além de nós, era um belga chamado Patrick, que apenas se ausentava para ir buscar carregamentos de haxe à fronteira, pois tratava-se de um dealer de excelente reputação. Era um local relativamente perigoso, mas cheio de episódios interessantes. Lembro-me de dois holandeses que vestiam sempre os mesmos jeans, há meses, e que quando os tiraram para dormir estes ficaram em pé, lado a lado, à espera dos donos na verticalidade, pois a sujidade sebosa que se entranhara neles entesava-os de tal modo que não os deixava tombar. Recordo-me de um rapaz com cerca de 10 anos de idade a olhar para nós enquanto comíamos um frango e a gritar que éramos carnívoros e que por isso iríamos morrer muito cedo, o pai dele não comia carne, só vegetais, tofu, seitan, rebentos de tudo e mais alguma coisa, e por isso tinha muita força, era o homem mais forte do mundo. Alguém nos disse, no dia seguinte, que o referido pai estava tuberculoso.

No apartamento em frente ao nosso vivia uma mulher ainda nova e até bonita, mas que apresentava um comportamento também digno de registo. Todos os dias batia à nossa porta, abríamos e ela entrava, com o cabelo muito comprido e a escorrer água, “La télé? Elle fonctionne?” perguntava ela, dava uma volta pela sala, nós não tínhamos televisão nenhuma, “Non, elle fonctionne pas!” concluía pesarosamente, encaminhava-se para a porta e saía.

Podia ficar aqui a tarde toda a contar as nossas experiências incríveis nessa casa, mas vou avançar para o que interessa. Um dia andávamos a passear no Jardin du Luxembourg quando um homem ainda novo, de estatura poderosa, com uma barba imponente e uma voz possante, ainda hoje me faz lembrar a figura de Zeus, estacou à nossa frente e nos perguntou se éramos portugueses. Tratava-se do Pompílio. Falámos com ele durante cerca de uma hora. No dia seguinte tocou-nos à porta.

“Agarrem nas vossas coisas e venham comigo, para minha casa. Já falei com a minha mulher. Isto não é lugar para vocês.”

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

7 - A MINHA VIDA EM PARIS ANTES DE CONHECER OS PAIS DO DAVOUD



Bom, amigo Silveira, continuando a nossa conversa de ontem, sobre o Davoud, volto a dizer que tenho a certeza de que era ele o miúdo que conheci em Paris. Lembro-me bem desse período, talvez o mais interessante da minha vida, e de quase tudo o que se relaciona com essa viagem.

Depois de regressarmos a Genebra, eu e o Cortes separámo-nos dos outros e fomos em direção a Paris. Ele continuava a arrastar a mala enorme, que parecia feita à medida do seu cérebro, pois toda a gente sabia que ele possuía um ampliador cabeça, os amigos tinham até elaborado tabelas para calcular rapidamente os descontos a fazer em relação às suas afirmações: às medidas dos animais, por exemplo, havia que aplicar uma taxa redutora de 75%, no caso das doenças, a redução chegava a atingir os 99%.

Como tínhamos de andar à boleia, a mala era um desmotivador de boas ações, por mais que os condutores tivessem intenção de parar e chegassem mesmo a imobilizar os veículos, a verdade é que quando as viaturas se apercebiam do seu tamanho descomunal desobedeciam às ordens dos condutores e aceleravam por vontade própria. Pelo menos era o que eu gostava de dizer, para irritar o meu companheiro de aventura.

Estávamos nós há 12 horas de braço esticado numa terra chamada chalon-sur-Saône, nunca me esquecerei do nome, quando fomos assolados por uma daquelas decisões que parecem nascer da frustração mas que, posteriormente, mostram ser fruto de uma ordenação mais alta, digo até divina: abandonámos a tarefa, entrámos num café, pedimos umas sandes e uma garrafa de vinho e regalámos as nossas papilas do bom gosto. Quando saímos já anoitecia, mas aquecidos pelo líquido de Baco e mais desleixados com as probabilidades, esticámos novamente os braços na berma da estrada principal. Ainda os dedos apontadores não estavam completamente direitos e já um citröen 2CV refreava o seu instinto galopante e estacava 5 metros à nossa direita. Nem queríamos acreditar. Lá dentro, um marroquino chamado Hassan, esticava os cantos da boca tentando chegar com eles às orelhas. “Ou allez vous?”, “Paris, Paris”, “Entrez, entrez”, “Et la valise?”, “Oh! Merde, que portez-vous en cette valise?”, “Le Portugal”, “Mais, c’est grand, le Portugal!”...

Conseguimos encafuar o malão e o Cortes nos bancos traseiros do automóvel e lá foi este, teimoso e lento, galgando quilómetros até à capital francesa. Hassan deixou-nos junto à estação do Metro Montparnasse – Bienvenüe, porque o nosso destino era ali perto, numa rua chamada Raymond Losserand, em honra do notável dirigente da resistência francesa executado em 1942. Eram quatro da manhã. O Cortes não quis incomodar as nossas amigas portuguesas anfitriãs àquela hora e por isso ficámos junto à gare, aquecendo-nos com o bafo dos respiradores do metro. Às seis da manhã olhámos em volta e concluímos, admirados, que Paris estava cheia de bêbados e sem-abrigo a tentarem aquecer-se como nós. É assim em todo o lado, amigo Silveira, por mais vaidosas que sejam as civilizações e as cidades, a miséria humana estende-se, incontornável, como um grande capacho onde as consciências podem limpar os pés e entrar calmamente nas casas limpinhas da civilidade. Enquanto não se tornar insuportável, a miséria não perturba, não contamina, limpa e fortalece a má consciência social. Quando deveríamos dizer “a sociedade não é boa porque muitos são tratados como coisas” pensamos “a sociedade é boa para muitos e felizmente eu sou um deles”. E os próprios despojados da condição humana, contaminados por esta deterioração do ponto de vista, acabam por afirmar “a sociedade não é boa para mim porque tive azar ou não a mereço” e depois invertem o pensamento e concluem “eu não sou bom para a sociedade”.

As nossas duas amigas tinham cada qual o seu apartamento no n.º 2 do squat da rua Raymond Losserand. Um squat é um prédio votado ao abandono que é ocupado por pessoas que não são donas nem pagam renda nem têm autorização para o fazer. No caso daquele, não era apenas um prédio, era todo um quarteirão. Tinha sido ocupado por gente com ideais de vanguarda mas o tempo substituíra muita dessa gente por imigrantes das mais diversas nacionalidades e por toxicodependentes. Chegámos lá às sete da manhã e fomos recebidos pela Fátima, uma amiga portuguesa com ar beduíno que vivia com um argelino chamado Mustafa, o qual parecia nunca lavar a cabeça e passava o tempo todo deitado a ler um livro qualquer da faculdade e a enrolar com o dedo indicador da mão direita um tufo de cabelo encaracolado, que dava a sensação de escorrer óleo.

Fátima levou-nos ao 3.º andar e alojou-nos na casa da outra amiga, chamada Madalena, que tinha ido passar uns tempos à Turquia com um namorado dessa nacionalidade. Vivemos ali 3 semanas cheias de peripécias e estranhezas, amigo Silveira, e apenas a boa vontade dos pais do Davoud, pois tenho a certeza de que eram os pais dele, nos livrou daquela situação bizarra.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

6. COMO É QUE EU CONHECI O DAVOUD



Pois é Silveira, aquele teu amigo, o Davoud, tenho a certeza de que o conheci em Paris, quando tinha vinte anos, foi no verão antes de entrar para a Faculdade, ele não se lembra de mim, nem é suposto lembrar-se, pois nessa altura não tinha mais de 3 anos, mas eu reconheço-o por causa de um sinal que tem no pescoço, hás de reparar, parece que às vezes quer espreitar por baixo dos colarinhos da camisa como se, ao mesmo tempo, sentisse uma enorme curiosidade e quisesse passar despercebido.

Lembro-me de o dito sinal ser notícia na TF1. O miúdo tinha uma guitarra elétrica no pescoço, com cerca de três centímetros, bem delineada, parecia milagre, porque o pai, o Pompílio, era guitarrista aos fins de semana, tocava nos bailes dos emigrantes portugueses, cheguei a ir a um deles, cheirava a sardinha e a bacalhau assado e muitas bochechas tinham a cor do vinho e tudo dançava ao som de cantigas brejeiras, viras minhotos e risadas de acordeão.

Em junho eu, o Cortes, o Carvalho, o primo do Carvalho e o Lagos, animados pela abertura à Europa que a revolução de 74 tinha trazido aos jovens, libertando-os também da saloiada salazarista, a que infelizmente estamos a voltar, pelo menos na desconfiança e na burocracia, em junho, dizia eu, decidimos meter-nos no comboio e ir para a Suíça, passear e ganhar algum dinheiro a apanhar fruta, ou talvez tomate, já não me lembro, do que me lembro é que estávamos com uns tomates do caraças, com um herói dentro de cada uma das bolinhas a espevitar-nos as hormonas e a excitar-nos com a perspetiva da viagem.

Na noite anterior reunimo-nos no Piper´s, um bar junto ao mercado, e a coisa começou logo a ganhar dimensões épicas, cada um de nós pediu uma imperial, exceto o Carvalho, que solicitou educadamente, como era seu hábito, um sumo de laranja, que naquele tempo era feito com uns pós estranhos, a que chamavam essência, ora o essencial da questão é que mal o desgraçado levou a bebida à boca começou a inchar, a inchar, o cimo do pescoço, os beiços e as bochechas pareciam querer arrebanhar todo o sangue e restantes líquidos do corpo, “porra, temos que correr para o hospital senão este gajo morre e lá se vai a viagem!”, saímos sem pagar, os empregados aperceberam-se da situação mas disseram para irmos à vontade, que a despesa era por conta da casa, subimos a Avenida 25 de Abril, a caminho do hospital, com o Carvalho transformado numa lástima empolada, mas o primo dele tinha uma máquina fotográfica, que havia comprado de propósito para a viagem, e queria começar a usá-la o mais cedo possível, vá-se lá saber porquê achou que aquela peripécia já fazia parte da grande aventura e toca a mandar-nos parar para tirar uma fotografia à carantonha do infeliz, o Carvalho nunca mais lhe perdoou esse capricho artístico que, na opinião dele, constituiu um atentado aos valores da solidariedade e da família, embirraram um com o outro durante toda a viagem e ainda hoje não se falam.

No dia seguinte partimos da gare de Santa Apolónia, no Sud Expresso, cada um de nós levava aquilo que considerava essencial, eu tinha alguns pares de cuecas, um licor que surripiara não sei donde e que tinha a marca “Campino”, e ainda uma gramática de latim, porque tinha feito exame e não sabia se precisava de o repetir, o Carvalho carregava um saco cheio de conservas e chouriços, o primo, o Dinis, levava a máquina fotográfica e muitas pernas de frango assadas e picantes, porque o pai era dono de uma churrascaria, o Lagos, que me lembre, apenas viajava com uma grande curiosidade, uma enorme magreza e o sonho de ser um ator de relevo, devo dizer que conseguiu isso, entrou para o Conservatório e fez carreira, finalmente o Cortes arrastava com esforço um enorme malão castanho, cheio de roupas, porque pretendia seguir da Suíça para Inglaterra, ao encontro da sua namorada, que estava lá a trabalhar como enfermeira.

Fomos a caminho de Martigny, no cantão francês, passando por Lyon, Genève e Lausanne, embora estivéssemos a entrar no verão havia um frio do caraças e a apanha da fruta estava muito atrasada, apenas iria começar dali a três semanas, por isso decidimos regressar a Genève, porque não tínhamos dinheiro para aguentar a carestia de vida suíça durante tanto tempo.

Foi na bonita cidade de Lausanne, a caminho de Genève, que o meu licor “campino” cumpriu a sua função. Depois de jogarmos xadrez nos tabuleiros desenhados nos pavimentos, passámos a noite na gare, tentando resguardar-nos do frio intenso. A sala estava cheia de clientes como nós, também eles enregelados. “Fermez la porte” era a única frase que se ouvia quando alguém entrava. Todos cumpriram aquela mistura monocórdica de ordem e solicitação até que entrou uma mulher desgrenhada, ainda relativamente jovem, magra e loira, que abriu as portas de par em par e se recusou a fechá-las, gritando que em Espanha uma família inteira tinha morrido com monóxido de carbono numa sala. Ficou à entrada, com a corrente glacial a passar por ela, a atropelar os palavrões que lhe eram atirados de todos os lugares e a congelar as carnes e os ossos. Ao fim de cinco minutos de lengalenga, que pareceram uma eternidade, foi-se embora e logo meia dúzia de corpos enregelados se levantaram para vedar o acesso ao ar gélido da noite. Acomodámo-nos todos, aliviados, mas o nosso otimismo durou muito pouco, eis que a mulher voltou a irromper na sala, gritando “vous êtes fous, oh oui, en Espagne une famille entière…”. A cena repetiu-se várias vezes, de tal modo que os palavrões em francês já não conseguiam elevar-se no ar gelado, caíam mal eram arremessados da boca, e foi então que eu abri a garrafa de licor e esta passou por todas as bocas da sala e tenho a certeza de que nunca aquela bebida açucarada, alcoólica e enjoativa foi tão unanimemente apreciada.

Bom Silveira, hoje não tenho tempo para te contar o resto da viagem e como encontrei os pais do Davoud, o Pompílio e a Iracema. A minha mulher está à espera. Se estiveres aqui amanhã, a esta hora, ficarás a saber tudo.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

5. O MEU IRMÃO NÃO MATEI EU


O meu irmão não matei eu. Isso é certo e seguro como uma ponte portuguesa.
Já a negação da minha nacionalidade tem muito que se lhe diga. Agora, que os meus paizinhos não sejam iranianos, mas portugueses que ostentam os nomes de Pompílio e de Iracema - ou seriam, antes, brasileiros, sobretudo a senhora...? -, isso poderia ser verdade. Porque o meu pai sempre me disse que não era meu verdadeiro pai. Mas Pompílio?

Entramos todos no automóvel velho. Ou seja: como não cabemos no interior, de onde os bancos traseiros foram retirados para levarmos objectos que tencionamos vender - duas mesas, um candeeiro, uma cómoda pequena e alguns quadros -, a família tem de ir numa banheira que transportamos no tejadilho. Enquanto empurro o Silveira lá para cima, para a banheira, ele pergunta-me:
«Mas a polícia deixa o carro ir nestes preparos?»
Hilariante Silveira. Como se eu pudesse cruzar-me com a polícia! Como se, acontecendo isso, não tivesse de acelerar numa fuga acima dos 200 km/h (que o carro não atingiria, mas isso é outra história)! Como se eu pudesse correr o risco de ser interceptado, sem carta de condução, transportando gente numa banheira amarrada ao tejadilho, já para não falar do mobiliário e dos quadros roubados.

«Para onde seguimos?», pergunto, aos gritos, sentado ao volante.
«Para a igreja. O padre quer falar contigo!»
Arranco. Segunda. Não paro no stop. Terceira.
«E que história é essa do meu irmão?», grito em direcção à banheira.
«Hã!?»
Muito vento. Ponho a cabeça de fora e repito:
«Que aconteceu com o meu irmão!?»
«Mataste-o?» (Pergunta-me ou responde-me o Silveira?)
«Está morto?», pergunto eu.
«Não te oiço. Já falamos!»    

quarta-feira, 24 de junho de 2015

4. TOCARAM NOVAMENTE. ISTO JÁ É VANDALISMO!

Quem diabo está a tocar à campainha?! São dez horas da manhã, ainda estou no reino de Hypnos e Morfeu deu-me cabo do sono, levando-me por pesadelos intermináveis. Todas as noites é a mesma coisa, o cérebro entra em modo masoquista, espatifando a tranquilidade noturna com cenas pavorosas, dignas de um filme de terror. Assumo sempre dois papéis: o de realizador e o de personagem central. Tudo segue uma lógica narrativa impecável: a sequência das peripécias tem uma coerência perfeita, pelo menos é o que me parece quando acordo bruscamente e me lembro da totalidade da ação.

Tocaram novamente. Isto já é vandalismo! Nem ao sábado podemos dormir!

Hoje sonhei com a minha morte. Vi-me deitado numa urna cor de laranja, com o corpo completamente retalhado, deixando pender tiras de músculos fatiados e sanguinolentos. O Silveira e o Marcial estavam a meu lado, à esquerda e à direita, respetivamente, em pé, debruçados sobre mim.

“Desta vez é que foi, conseguimos!” Disse o meu primo. E uivaram os dois, como se fossem lobos a chamar a matilha para a carnificina. Começaram depois a despejar sobre mim azeite e vinagre, para me temperarem. O Silveira cortou alhos com uma faca japonesa e espalhou-os sobre as feridas do meu corpo. Sofri dores horríveis, embora estivesse morto.

Mais dois toques na campainha! Porra! Estou farto disto!

O Stop, que embora seja surdo-mudo fala sempre nos meus sonhos, para além de fazer caretas, ergueu-se repentinamente do interior do meu peito, como um alien, e gritou feito doido “Morre, morre peçonhento, estrume de porco, paga pelo que me fizeste!” O Sr. Padre também surgiu, não percebi donde. Estava com a cabeça encostada ao teto e aspergia-me com água benta, mas esta era ácida e ao entrar em contacto comigo esburacava-me todo. E ele berrava, retesando o pescoço “Foge ao pecado, foge ao pecado, assassino, seara do diabo!”

Não aguento mais! Tocaram de novo. Tenho de ir ver quem é. Que raio querem a esta hora? Estou a ficar em brasa!
Já vou, já vou! Quem é?
“É o Silveira.”
O Silveira? Que queres? Porquê a pressa?
“Abre, caraças! Tenho de te contar uma coisa.”

Espero que seja muito importante, ou então vais experimentar a raiva de um iraniano!

“Deixa-te de tretas, só o Padre é que acredita que és iraniano. Sei muito bem que os teus pais se chamavam Pompílio e Iracema, eram de Aveiro e estiveram emigrados em França, na região de Paris.”

Filho da mãe mentiroso! Abro a porta. O Silveira está a olhar para mim com a cara vermelha por causa da excitação. Pergunto-lhe o porquê de todo aquele alarido. Faz uma pausa. Explico-lhe que estou sem paciência para aturar as suas invenções. Cada vez está mais alienado, acho que caminha aceleradamente para o mundo dos psicóticos.
 Finalmente resolve contar-me o que se passa.

“Tinha de te dizer isto, Davoud, corre por aí o boato de que mataste o teu irmão!”

segunda-feira, 22 de junho de 2015

3. A HISTÓRIA COMPLICA-SE: BOM SINAL, BOM SINAL!


Puxo de um cigarro. Não para o fumar, que não fumo há muitos anos, desde que o Monsenhor exclamou, horrorizado, «Um padre não fuma!»», um dia em que me viu soprando aros de fumo para o ar. (O que eu tentava era formar cruzes, mas não pude aperfeiçoar o método). Já não fumo, portanto. Mas, a sós, puxo de vez em quando de um cigarro, mantenho-o entre o indicador e o médio, e isso ajuda a que me concentre e a que ponha as minhas ideias em ordem.

Estou com dois textos diante dos olhos. Um, que leram primeiro, foi o daquela espécie de duelo entre o Davoud e o Silveira, e que o Silveira transcreveu como vos dei a ler. Estranho momento. O Silveira e o Davoud apontando-se pistolas um ao outro, incapazes de ultrapassar a situação - como se chegou àquilo? perguntei-me ao reler a descrição.

Tentando recordar a sucessão de peripécias que levou ao «impasse armado», como se lhe referia o Silveira, fui à procura de outras cartas, anotações, fotografias, e dei de caras com aquela missiva do Davoud. O Davoud escrevia bem! Lia muito, e era um fanático pela literatura portuguesa (inclusivamente Camilo), apesar de se tratar de um imigrante iraniano que aprendeu o português à sua própria custa.

Casou cá, em Portugal, com a Irina, que era por sua vez uma emigrante ucraniana.
 Sei que Davoud me escondia que era casado e tivera filhos, para assim justificar a sua tremenda fome sexual; nem na confissão - que me relembra na carta - teve coragem para me revelar que o seu pecado de insaciedade sexual era, ainda por cima, um pecado de infidelidade.

Marcial não era seu primo. Foram criados juntos, de facto, por uma senhora nobre que os acolheu, mais a um irmão de Davoud, surdo-mudo. Consta que a senhora foi assassinada por Davoud, seu irmão e Marcial: teriam eles entre catorze (o mais novo, irmão de Davoud) e dezoito anos (Davoud e Marcial). Também há quem diga que a senhora foi morta por um herdeiro. Ao certo, ninguém sabe.

Mas alguém sabe alguma coisa nesta vida?
Marcial desapareceu. Quando reapareceu, era um homem que entretanto casara, tivera filhos, mas perdera a mulher e os filhos.
Desígnios de Deus? Que sabemos nós disso, também?
E se eu alumiasse este cigarro e desse duas fumaças para me acalmar?

segunda-feira, 15 de junho de 2015

2. QUE O SR. PADRE NOS AJUDE!




Chamo-me Davoud, Sr. Padre. Lembra-se de mim? Foi o senhor que, com enorme bondade, me orientou quando eu andei tresmalhado do seu rebanho, completamente desorientado pelas inúmeras tentações da carne, que me saíam ao caminho a qualquer hora do dia e da noite, me abriam desmesuradamente as pupilas e me introduziam no cérebro uma vontade irascível de copular. Sempre fui extraordinariamente dotado para as palavras, podia escrever um livro a partir da minha fala, porque desde a infância que as frases me saem com a sintaxe e o vocabulário da escrita. Isso agrada às mulheres, perdão, Sr. Padre, às senhoras, assim é que devo falar, porque merecem o nosso respeito, como muito bem me ensinou.

Quando o procurei, naquele dia terrível em que senti a morte a lamber-me as tripas e a fazer de mim um calafrio, olhou-me compadecido, pousou-me a mão no ombro, sentou-me no banco de madeira da sacristia e ouviu-me durante horas. As palavras pareciam escoar todas as minhas frustrações para os seus ouvidos, libertando-me dos padecimentos, há muito tempo acumulados pela compulsão libidinosa que me assolara ao longo de meses. Durante toda a minha vida, tinha sido um fulano misógino, incapaz de criar intimidade significativa com as mulheres. Interessava-me apenas pela sedução superficial. E tinha muito sucesso nesse domínio, pois elas adoravam as pequenas atenções que lhes proporcionava, falavam do meu olhar meigo e enigmático, queriam perder os dias na minha proximidade.

Uma noite transformei-me. Tive aquele sonho, penso que se lembra de lho contar, e na manhã seguinte acordei como se me crescesse um vulcão nos testículos, como se o diabo abrasado se tivesse introduzido abusivamente no meu corpo e me soprasse furiosamente nas glândulas sexuais. O falo inchou e assim permaneceu, altaneiro, sôfrego, latejando pecaminoso perante qualquer mulher. Nenhuma amiga escapou ao meu desejo. Atraiçoei tudo e todos, arrisquei a vida, perdi a dignidade, fui corroído pela culpa. A pujança fálica era inesgotável, até doer, até aos espasmos.

Mas hoje não é de mim que venho aqui falar, Sr. Padre, é do meu primo, o Marcial, que bem conhece. Estou muito preocupado. Tudo começou há cerca de um mês. Estava com ele na sala, a ver um jogo de futebol, e reparei que tinha um ar pasmado, a olhar através da parede, para o infinito. Nunca mais foi o mesmo. Fala sozinho, mostrando sinais de demência, diz coisas ininteligíveis… Às vezes tenho a sensação de que pensa que existe mais gente em casa. Gostava muito que o Sr. Padre o chamasse aqui para conversar, fizesse com que ele se abrisse, como aconteceu comigo. É o meu único familiar e fomos criados juntos. Quando lhe assaltaram a casa e lhe mataram a mulher, os dois filhos e a sogra, ficou perdido durante anos, à deriva pelo oceano das dores. Parecia ter recuperado, desde que veio para minha casa. Mas estou muito apreensivo com esta nova faceta dele, Sr. Padre. Suplico-lhe que nos ajude.